O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vai passar a despachar do gabinete que pertencia ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, na sede do Partido Liberal, em Brasília.
Ele vai comandar, do 9º andar no Complexo Brasil 21, no centro comercial da capital, o que seus aliados avaliam como uma nova fase de sua pré-campanha à Presidência da República.
A mudança é considerada um gesto simbólico direcionado aos parlamentares, dirigentes e quadros da legenda, numa demonstração de que o herdeiro segue os mesmos passos do pai. Um aliado diz que “começar a ocupar o trono é o primeiro passo para pegar a coroa”, em referência à eleição de outubro.
O espaço estava desocupado desde a prisão domiciliar de Bolsonaro, decretada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes em 4 de agosto. Em novembro ele começou a cumprir a pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
O escritório fica bem acima da sala da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, presidente do PL Mulher — situação que vem causando curiosidade das pessoas que frequentam o partido.
Isso porque ela foi escanteada pelos enteados na corrida pela definição do sucessor de Bolsonaro na corrida pelo Palácio do Planalto. E agora terá de lidar com o pré-candidato oficial da sigla recebendo correligionários e articulando alianças eleitorais no local de trabalho dela.
Uma liderança da cúpula da sigla questiona, sob reserva, se Michelle “vai só assistir; se vai se incomodar e pedir pra mudar de escritório; ou se vai abraçar a causa de uma vez por todas”. Aliados da ex-primeira-dama não gostaram do fato de Flávio ter anunciado a pré-candidatura de supetão, em dezembro.
O presidenciável deve começar a despachar do diretório nacional do PL nesta semana, assim que voltar da viagem aos Estados Unidos, onde está na companhia do irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, e do comunicador Paulo Figueiredo. A agenda não foi divulgada por sua equipe.
A pré-campanha de Flávio está hoje na etapa de organização dos palanques estaduais. Ele delegou ao senador Rogério Marinho (PL-RN), secretário-geral do PL e coordenador de sua campanha, a tarefa de fazer essas articulações.
Marinho se tornou figura-chave da campanha, uma vez que tem carta branca para negociar as chapas diretamente com Bolsonaro, preso no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha.
No Rio de Janeiro, há a expectativa de que Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo e secretário estadual de Cidades na gestão Cláudio Castro (PL), ofereça palanque para Flávio enquanto candidato ao governo do Estado.
Em São Paulo, apesar do vai-e-vém na relação com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), Flávio espera ter apoio do aliado a quem definiu recentemente como tendo saído “da costela de Bolsonaro” — numa demonstração pouco elogiosa de que espera retribuição do ex-ministro de seu pai.
Flávio e Tarcísio devem se encontrar na próxima sexta-feira, 27, no Palácio dos Bandeirantes para azeitar a relação e passar uma mensagem à imprensa e à sociedade de que estão juntos no projeto eleitoral bolsonarista.
A equipe de Flávio tem se norteado em pesquisas para traçar estratégias. Hoje seus aliados identificam não haver concorrência à candidatura do senador na raia da direita, após dias de divisão clara entre seu grupo e lideranças que são mais próximas de Tarcísio, Michelle, o pastor Silas Malafaia e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Os dados mostram que a dificuldade para Flávio hoje reside no grupo dos indecisos, em que Tarcísio tinha melhor desempenho, classe média e mulheres. E há expectativas de atrair mais uma vez uma boa parte dos jovens — mas também receio de que o Pé-de-Meia (programa do Ministério da Educação que fornece apoio financeiro a estudantes para incentivá-los a permanecer na escola e concluir o ensino médio) possa aproximá-los do PT.
Esses levantamentos têm motivado os ajustes no discurso do senador, principalmente para tentar corrigir percepções “errôneas” identificadas nos eleitores, de acordo com seus aliados.
Nos últimos dias, Flávio fez publicações defendendo o carnaval e a luta antirracismo do jogador Vinicius Júnior, atacante da seleção brasileira, e endossou uma mensagem do irmão Eduardo direcionada à comunidade LGBT.
A mudança na comunicação foi reforçada após pesquisas internas mostrarem um público moderado ressabiado com uma suposta identificação de Flávio com os militares – carreira da qual ele nunca fez parte. A equipe do senador passou a defender a necessidade de um movimento ao centro, para alcançar um eleitorado para além da direita ideológica.
Os aliados de Flávio trabalham formas de tentar dissociá-lo do militarismo e dialogar com um público que rechaça discursos estridentes. Nas entrevistas qualitativas, o senador é pouco conhecido além de “filho de Jair Bolsonaro” por um grupo de pessoas cujo voto pode ser determinante para ele derrotar o PT em outubro.



